Sede da AMI (5º prémio)
Conceito
Propomos um conceito poderoso: a AMI de braços abertos para oferecer; a AMI de braços abertos para receber.
Desde o ponto de vista arquitectónico e formal, propomos um edifício cheio de simbolismo e representatividade para a Instituição.
Como Instituição de apoio humanitário, a Assistência Médica Internacional, presta-se a intervir na dignificação da espécie humana; de acordo com a sua missão, qualquer que seja o contexto ou o motivo, a AMI está sempre pronta a abrir os braços a uma causa. Por sua vez, a AMI apresenta-se de braços abertos para a recepção dos seus amigos; para a recepção de donativos (para preparar as suas missões com maior rigor e prontidão em situações de emergência); para a recepção dos seus voluntários.
Em suma, uma Instituição que vive do interior para o exterior e do exterior para o interior. A AMI como uma Instituição aberta, como uma Instituição flexível.
Entendemos, trabalhamos e propomos esta dialéctica, como tema essencial no desenvolvimento da nossa proposta.
Corpos
O edifício Sede nasce de um gesto único e forte. Protegido no ventre, temos a Creche/Infantário.
Este último busca pontos de contacto com o edifício da Sede da AMI, ao mesmo tempo em que se solta (formalmente), de forma a permitir gerar o distanciamento e a independência necessários ao bom funcionamento autónomo deste equipamento.
Forma
A formalização da proposta tem uma enorme preocupação: como criar espaço público e com isto como fazer cidade.
De maneira a permitir a continuidade do espaço urbano até à cobertura do edifício, optamos por baixar um dos “braços”. Este simples gesto permite que o espaço público se desenvolva ao longo de toda a cobertura do edifício, sendo que, o remate deste percurso (um pouco mais elevado), tem o seu maior interesse nas vistas que lança para o horizonte, para o mar e para o “mundo”. A esta ideia de promenade architecturale, de um percurso de contemplação do edifício e da paisagem, alia-se uma vez mais a função social do edifício.
De igual modo, e para que se possa libertar pavimento urbano, optamos por elevar o “braço esquerdo” (gesto que acompanha os degraus do anfiteatro - auditório).
D
este modo, para além destas mais-valias, pretendemos criar uma peça de Arquitectura mais interessante do ponto de vista dinâmico (como suavização da sua rigidez formal).
Entradas
Propomos cinco entradas estruturadas de acordo com as necessidades programáticas: uma entrada para a Sede à cota da “praça urbana”, de acesso público; partindo da oportunidade gerada pela escadaria urbana, localizam-se as entradas autónomas dos pisos 1 e 2; sob o volume em consola rasga-se uma entrada independente ao auditório e zonas de apoio do mesmo; por fim, garante-se um acesso independente à Creche/Infantário. Em suma, a “praça” como foyer exterior de distribuição.
Organização espacial interior
O edifício Sede da AMI é composto por 3 alas, com cerca de 10m de profundidade, organizados de forma contínua em torno de uma praça de recepção onde se localiza a Creche/Infantário. Os espaços de trabalho abrem-se para o exterior sendo servidos pelas circulações comuns que se organizam em torno da “praça”. A Creche/Infantário adopta uma organização espacial idêntica, com as salas de actividades e restantes espaços abertos para o exterior sendo servidos por uma circulação comum em torno de um pátio central.
A organização espacial do edifício permite implementar estratégias de arrefecimento passivo (diurno ou nocturno) o que em conjunto com a inércia térmica interior permitirá reduzir as necessidades de arrefecimento e os consumos energéticos associados ao sistema de climatização.
A reduzida profundidade dos espaços de trabalho e a possibilidade de os ocupantes controlarem o sistema de sombreamento permitem garantir bons níveis de conforto luminoso e simultaneamente reduzir as necessidades de iluminação artificial e consumos energéticos associados.
Arranjos exteriores (Arquitectura Paisagista)
A estratégia de desenho dos espaços exteriores, teve como principal objectivo criar um sistema coeso, que pudesse responder a todas as exigências formais e funcionais do programa através de uma imagem forte e coerente para os vários espaços.
Assim, desenhou-se um “tema” único, onde se insere o edifício, os estacionamentos, as escadas e restante espaço público. Devido à morfologia do terreno, houve a preocupação de criar plataformas planas para mais fácil e eficientemente organizar o programa, tornando a vivência destes espaços mais confortável. A Nascente desenvolveu-se a plataforma da “praça”, a Sul uma zona em pequenos socalcos onde se integra uma zona de estadia, a Norte na escadaria são criados patamares intermédios arborizados com pequenos espaços de estadia, e finalmente os pátios do interior do edifício, são organizados de maneira a potenciar as relações espaciais e visuais entre o interior e o exterior do edifício, bem como a potenciar o edifício de diversas atmosferas e ambientes.
Pátios e Jardins
A – Pátio/Jardim da AMI: No desenho do Jardim da AMI, foram exploradas as diferentes relações que o edifício estabelece com a envolvente, quer a nível de cotas (relações com a escadaria a Norte, com o passeio a Poente e com os patamares a Sul), quer a nível programático. Este grande pátio de uso privado, permite gerar zonas de estadia e lazer para os funcionários, bem como permitir uma excelente iluminação interior.
B – Pátio do Museu e Átrio: Através de uma luz zenital, mal entramos na Sede somos sensorialmente empurrados para o fundo do Átrio; julgamos poder ser interessante e valorizador do espaço interior esta noção de perspectiva e profundidade. Por outro lado, entendemos este espaço exterior, como extensão da área interior do Museu; este prolongamento poderá funcionar para exposição de esculturas, pequenos eventos de apoio mais directo ao Museu etc., ou então, pura e simplesmente como um espaço de contemplação.
C – Pátio da Cafetaria/Refeitório: Espaço de remate da perspectiva para quem entra na entrada autónoma do Auditório. Terá como função principal, servir de esplanada exterior.
D – Pátio Poente: Espaço “filtrado” com relações entre o interior e o exterior do Átrio de entrada. Apesar de não pertencer fisicamente à Creche/Infantário, tem a possibilidade de ser um espaço controlado, exterior à mesma.
E – Pátio Nascente (Creche/Infantário): Tem como principal objectivo a criação de uma área de recreio para as crianças, funcionando também como um prolongamento da Creche/Infantário para o exterior. Este pátio tem duas características a salientar e que julgamos muito importantes: a primeira, o facto de ter uma excelente área coberta; a segunda, de permitir uma relação filtrada com o interior da Sede, mais concretamente com a zona do balcão da cozinha.
F – Pátio Creche/Infantário: Pátio central do corpo da Creche/Infantário, para o qual está virada a circulação interna. Este pátio, ao exemplo do anterior, possui pavimentos como o areão e polímeros de borracha, permitindo uma utilização segura por parte das crianças, bem como alguns equipamentos lúdicos.
AMI radouro (cobertura do edifício)
Em estrita relação com o conceito e forma do edifício, a cobertura surge como uma continuação do espaço público sob a forma de promenade architecturale. O facto de um dos braços descer e tocar no espaço público, convidando a comunidade a descobrir a Instituição, a paisagem e o mundo, é sinal do modo “humilde” (apesar da força formal) com que o edifício se integra no tecido urbano. Assim da mesma maneira que a AMI opera no mundo, também o edifício deverá transparecer esta humildade, abrindo-se à população e oferecendo a cobertura como prolongamento do espaço público, integrando-se na vivência urbana e social do bairro.
O espaço da cobertura funciona como um miradouro público de grande qualidade urbana, desempenhando um papel importante e uma mais valia para a habitabilidade do bairro. Este será o espaço da estadia, do lazer, da introspecção e dos “sonhos”, gozando de vistas privilegiadas sobre o mar, promovendo uma relação afectiva entre a comunidade e a Instituição AMI. Tendo em vista esta ideia central, propomos que este espaço seja denominado de AMIradouro, funcionando como espaço representativo/”memorial” para a Instituição e para a comunidade, integrando a toponímia do bairro. O desenho de pavimento, constituído por pequenos círculos, reforça este conceito, podendo simbolizar cada um, uma diferente missão da AMI no mundo. Este espaço funcionará como catalizador para a consciencialização da comunidade, informando as pessoas da valiosa actividade da Instituição no mundo, levando a angariar cada vez mais pessoas nas campanhas e nos projectos. Este grande “memorial” seria um espaço de todos e para todos, servindo também de “cara” da Instituição, ou seja tudo o que é organizado e estruturado no interior da sede, terá um reflexo e um símbolo na cobertura, no AMIradouro, sob a forma de um símbolo comemorativo no pavimento, transparecendo para o público a nobreza e dinamismo da Instituição no mundo. Consideramos que o AMIradouro deverá ser o espaço por excelência do bairro, um novo centro urbano na dinâmica da cidade, com toda a sua potencialidade enquanto motor da consciencialização da vontade humana.
Como nos encontramos numa fase de concurso (porventura poderão existir questões flexíveis), propomos que a cobertura (por defeito) funcione como espaço público de e para a cidade; com esta valência poderá existir um maior fluxo e uma maior vida urbana em torno da Assistência Médica Internacional (logo com as suas enormíssimas vantagens). Contudo gostaríamos de referir que em ocasiões especiais para a criação de eventos privados da Instituição, a cobertura poderá funcionar como espaço privado através da inclusão de um elemento ligeiro que impeça as pessoas de passar para o interior da mesma (fita delimitadora em rolo, gradeamento bem desenhado, painéis amovíveis embutidos na caixa de elevadores, etc.). Em suma, apesar de podermos estar errados, propomos esta alteração ao Programa Preliminar não só para deixar o júri a pensar, mas também porque achamos convictamente que esta questão poderá favorecer melhor os interesses da Assistência Médica Internacional.
Materialidade
A ideia principal da materialização do edifício Sede surge na continuação do discurso do conceito principal da proposta (“A AMI de braços abertos”). Por sua vez, quando abrimos os braços, esperamos (logicamente) abraçar algo, ou então, ser abraçados. Deste modo, parece-nos lógica e pertinente este processo a dois tempos (abrir os braços + abraçar/ser abraçado). Interessa-nos desenvolver esta sequência como analogia à fraterna e leal acção da Assistência Médica Internacional.
Valorizando a atitude humilde da Fundação AMI, rejeitamos uma excessiva ostentação de materialidade. Procuramos, para isso, que o projecto tenha uma imagem super depurada, vivendo do seu valor simbólico e do seu gesto claro, contudo gostaríamos de oferecer à “cara” da AMI uma beleza subtil e uma vez mais, única. De forma a atingir essa simplicidade formal trabalhou-se um sistema de fachada que pudesse ser ao mesmo tempo identificável, original, simples e económico, mas, não pondo em causa estes pontos, fosse também complexo do ponto de vista do pensamento arquitectónico. Desse modo, tomando partido das vantagens da pré-fabricação, desenvolve-se um sistema de fachada baseado em peças de betão leve.
A partir de uma peça base (um braço estilizado) desenvolveram-se três variações. Conseguimos com isto gerar um uso diferenciado de estereotomias nos alçados, de forma a possibilitar o tratamento diferenciado das superfícies, partindo-se da opacidade total e acentuando gradualmente o nível de transparência.
Conseguimos assim, com um sistema de fachada, intensificar a ideia conceptual do conjunto através do uso da plasticidade e de texturas.
Poderemos observar 15 das várias possibilidades de fachada que estudámos; de acordo com o programa interior, de acordo com as diferentes orientações solares etc. aplicamos um segmento. Apesar de serem fragmentos, jamais se coloca em causa a continuidade das fachadas.
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Ficha técnica:
Designação: Sede da AMI
Localização: Carcavelos, Cascais, Portugal
Data: 2007 e 2008 (Concurso)
Promotor: AMI - Assistência Médica Internacional
Projecto de arquitectura: Cláudio Vilarinho
Colaboradores: António Carvalho, Filipe Lemos, João Sousa, Tânia Lopes, Vasco Silva
Projecto de Arquitectura Paisagista: Lília Coelho + Nuno Almeida
Projecto de especialidades: Afaconsult
Consultoria em eficiência energética: Miguel Nery
3d: Michel Ferreira